Trauma intergeracional e resiliência indígena: a pergunta que ecoa gerações
A obra 'Treat Them as Buffalo', de Danika Medak-Saltzman, explora o trauma intergeracional causado pelas escolas residenciais indígenas no Canadá e a resiliência das comunidades afetadas. A autora reflete sobre a pergunta 'Os índios ainda existem?', feita por ela aos cinco anos, e como a vergonha e o racismo moldaram a identidade de sua família. O texto destaca a desconexão entre a representação estereotipada dos povos indígenas na mídia e a realidade vivida por sua família, composta por cowboys e cowgirls, e a descoberta tardia do passado de seu avô em escolas residenciais.
A pergunta que define uma infância
Aos cinco anos, Danika Medak-Saltzman viajava com sua mãe pelo Cowboy Trail, nas colinas de Alberta, quando fez a pergunta que marcaria sua trajetória: 'Os índios ainda existem?'. A indagação surgiu após assistir a representações estereotipadas de indígenas em filmes e quadrinhos, onde eram retratados com pinturas de guerra e gritos de guerra. Para ela, a imagem não condizia com a realidade de sua família, composta por cowboys e cowgirls, e a resposta de sua mãe, um riso constrangido, reforçou a desconexão entre a identidade indígena e a vida cotidiana que conhecia.
O legado das escolas residenciais
Aos treze anos, com a morte de seu avô materno, Medak-Saltzman começou a entender as raízes do trauma em sua família. Seu avô, um sobrevivente das escolas residenciais indígenas, teve um relacionamento distante com sua própria mãe, algo que a autora não compreendia na época. As escolas residenciais, instituições governamentais e religiosas que forçavam a assimilação de crianças indígenas à cultura dominante, deixaram marcas profundas. A vergonha e o racismo internalizados ecoavam nas gerações seguintes, incluindo a dificuldade de sua mãe em preencher os formulários de compensação para sobreviventes, conhecidos como Common Experience Payment.
Reconhecendo a colonização e suas consequências
Medak-Saltzman descreve como, até a adolescência, viveu uma vida predominantemente branca, exceto por momentos como jogar hóquei em terras Stoney Nakoda e Tsuut’ina, e frequentar o Calgary Stampede, onde convivia com pessoas Métis e mestiças. A autora reconhece que, embora sua família materna fosse grande e unida, aspectos menos glamourosos a diferenciavam da família branca de seu pai. A descoberta de que seu avô e tio-avô frequentaram escolas residenciais revelou as vibrações coloniais que permeavam sua família, gerando vergonha por serem colonizados e desconectados de suas raízes.