Fernando Novais, historiador marxista que revolucionou estudos sobre colonização e escravidão, morre aos 93 anos
O historiador Fernando Antonio Novais, autor de 'Portugal e Brasil na crise do antigo sistema colonial (1777-1808)', morreu aos 93 anos. Sua obra, considerada um clássico da historiografia brasileira, propôs uma nova abordagem sobre a colonização e o tráfico de escravizados, associando-os ao desenvolvimento do capitalismo. Novais defendia que o tráfico justificava a escravidão, e não o contrário, e seu trabalho impactou debates acadêmicos no Brasil e internacionalmente.
Contribuições acadêmicas e legado
Fernando Novais foi um historiador marxista cuja obra 'Portugal e Brasil na crise do antigo sistema colonial (1777-1808)', publicada em 1979, é considerada incontornável na historiografia brasileira. O livro, resultado de sua tese de doutorado defendida na USP em 1973, propôs uma nova forma de entender a colonização, destacando a relação entre o tráfico de escravizados e o desenvolvimento do capitalismo. Segundo Novais, 'não é a escravidão que justifica o tráfico, é o tráfico que justifica a escravidão', uma afirmação que redefiniu o debate sobre o período colonial. Sua abordagem articulava processos locais e globais, mostrando como a escravidão no Brasil exigiu um sistema produtivo distinto daquele observado na Europa durante a transição do feudalismo para o capitalismo.
Impacto e repercussão
O trabalho de Novais teve repercussão antes mesmo da publicação do livro. Em 1974, o segundo capítulo de sua tese foi publicado pelo Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento) e, no ano seguinte, em Portugal. Durante os anos 1980, sua tese foi uma referência para estudantes de graduação, influenciando uma geração de historiadores. Junia Furtado, do Programa de Pós-graduação em História da UFMG, destacou que Novais 'formulou uma maneira de compreender o Brasil a partir do Brasil', integrando processos históricos locais a dinâmicas mais amplas. Sua obra continua sendo reeditada e estudada, como na reedição de 2019 pela Editora 34.