América Latina redefine conceito de patrimônio cultural com foco em memórias silenciadas e resistência
Atlas do patrimônio latino-americano, organizado por pesquisadores de 13 países, destaca novas abordagens que incluem práticas sociais, memórias traumáticas e reivindicações de grupos historicamente marginalizados. Casos como a repatriação do crânio de um africano muçulmano nagô e a proteção de espaços de repressão política exemplificam essa transformação. A obra reúne 29 verbetes que discutem patrimônio além de monumentos, incorporando saberes indígenas e paisagens culturais ameaçadas.
Mudança de paradigma no patrimônio cultural
O conceito de patrimônio cultural na América Latina passou por uma transformação significativa, deixando de se restringir a monumentos, edifícios ou obras de arte para abranger práticas sociais, memórias traumáticas, territórios, saberes e corpos de grupos historicamente silenciados. Essa mudança é evidenciada por casos como o do crânio de um africano muçulmano nagô, retirado da Bahia no século XIX e levado para os Estados Unidos, que agora é objeto de uma articulação internacional por repatriação. Em São Paulo, antigos espaços de repressão política e isolamento sanitário começam a ser protegidos não apenas por seu valor arquitetônico, mas pelo que revelam sobre violência de Estado e resistência.
Atlas do patrimônio latino-americano: mapeamento e reflexões
Para documentar essas novas perspectivas, o historiador Rodrigo Christofoletti, da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), coordenou a publicação do 'Atlas do patrimônio latino-americano'. Lançado em dezembro de 2025, o livro reúne análises de 40 pesquisadores de 13 países da região e apresenta 29 verbetes que discutem os significados contemporâneos do patrimônio. Segundo Christofoletti, a América Latina desenvolveu uma visão crítica e própria sobre seu patrimônio cultural e natural, articulando debates conceituais e experiências ligadas a memórias ancestrais, paisagens culturais e práticas cotidianas, especialmente de povos indígenas impactados pela urbanização e crise climática.
Ruptura epistemológica e posicionamento político
Um marco fundamental nessa redefinição foi o desenho 'América invertida', criado pelo artista uruguaio Joaquín Torres-García em 1943. A obra propõe uma inversão da cartografia tradicional, colocando o Sul no topo do mapa-múndi. Christofoletti destaca que essa representação vai além de uma mudança estética: trata-se de um posicionamento político e epistemológico que busca olhar o continente a partir de si mesmo, desafiando as hierarquias do pensamento eurocêntrico. Essa abordagem reforça a importância de valorizar as narrativas e saberes locais na construção do patrimônio cultural latino-americano.