The BMJ retrata estudo sobre terapia com células-tronco para infarto após inconsistências nos dados
A revista médica The BMJ anunciou a retratação de um artigo que defendia o uso de terapia com células-tronco como procedimento valioso na prevenção de insuficiência cardíaca após infartos. A decisão foi tomada após a identificação de múltiplas inconsistências nos dados do estudo, incluindo padrões suspeitos de repetição em informações como altura e peso dos pacientes e a inclusão de participantes fora dos critérios de idade estabelecidos.
Inconsistências e questionamentos éticos
O artigo foi marcado como inválido após críticas publicadas no site PubPeer, onde foram apontadas irregularidades nos dados. Entre os problemas destacados, chamou atenção um 'padrão curioso de repetição' em informações como altura e peso dos pacientes, que apresentavam um número desproporcional de valores inteiros, sugerindo possível manipulação ou erro. Além disso, o estudo incluiu participantes com mais de 65 anos, apesar de o critério inicial estabelecer um limite de idade inferior. Dois dos dez autores originais, vinculados à Universidade Queen Mary de Londres, tiveram seus nomes removidos da retratação. Os cardiologistas Anthony Mathur e Sheik Dowlut alegaram que apenas forneceram 'feedback sobre o manuscrito antes de seu envio' e que haviam solicitado ao autor correspondente para não assinarem o artigo. Mathur, em particular, enfrentava questionamentos sobre conflito de interesses, uma vez que é curador da Heart Cells Foundation, organização que patrocina terapias com células-tronco para pacientes cardíacos.
Problemas no registro e alegações dos autores
Outro ponto crítico foi a discrepância no registro do estudo. O protocolo submetido ao The BMJ indicava que o ensaio clínico havia sido registrado antes do recrutamento dos pacientes, prática que garante transparência. No entanto, a data registrada no clinicaltrials.gov, banco de dados oficial de ensaios clínicos, era posterior ao início da pesquisa. Os autores justificaram as inconsistências como resultado de problemas na integração de conjuntos de dados hospitalares e apresentaram uma versão revisada dos dados. Apesar disso, a retratação foi mantida. Como o estudo foi conduzido no Irã, o The BMJ solicitou à Administração de Alimentos e Medicamentos do país que investigasse a origem dos equívocos.