Testemunha-chave no Caso dos Cadernos da Argentina denuncia coação e falsificação de depoimento
Julio César Silva, administrador do prédio onde Cristina Fernández de Kirchner residia, negou ter confirmado movimentações suspeitas de Daniel Muñoz, ex-secretário de Néstor Kirchner, entre 2007 e 2010. Silva alegou ter sido pressionado pelo juiz Claudio Bonadío e pelo promotor Carlos Stornelli a assinar declaração sem ler seu conteúdo, sob ameaças veladas envolvendo suas filhas. O caso, que investiga corrupção no governo Kirchner, enfrenta questionamentos sobre a legalidade dos métodos utilizados.
Contexto do Caso dos Cadernos
O Caso dos Cadernos, também conhecido como 'Causa Cuadernos', é uma investigação judicial argentina que apura supostos esquemas de corrupção durante os governos de Néstor Kirchner (2003-2007) e Cristina Fernández de Kirchner (2007-2015). O processo se baseia em anotações de Oscar Centeno, motorista de um funcionário do Ministério do Planejamento, que detalham pagamentos de propinas a políticos e empresários. A ex-presidente Cristina Fernández de Kirchner é uma das principais acusadas, enfrentando acusações de liderar uma associação ilícita para desviar recursos públicos.
Depoimento sob pressão
Julio César Silva, testemunha-chave no caso, afirmou em depoimento no tribunal de Comodoro Py que não reconhece trechos de sua declaração que mencionam a entrada frequente de Daniel Muñoz, ex-secretário de Néstor Kirchner, no prédio da Rua Uruguai com malas e bolsas entre 2007 e 2010. Silva alegou que assinou o documento sem lê-lo completamente e sob pressão do juiz Claudio Bonadío (falecido em 2024) e do promotor Carlos Stornelli. Segundo seu relato, os interrogadores ameaçaram indiretamente suas filhas durante o depoimento, o que ele interpretou como uma forma de coação. 'Eu assinei, mas não concordei com o que estava escrito… Eu nem sequer li. Eu entendo, eu sei que é crime assinar algo com o qual você não concorda', declarou Silva.
Implicações legais e reações
As declarações de Silva reforçam denúncias anteriores de empresários 'arrependidos', como Mario Rovella, Oscar Sansiseña e Guillermo Escolar, que afirmaram ter prestado falso testemunho sob coação. A defesa de Cristina Fernández de Kirchner e analistas jurídicos argumentam que o caso está comprometido por métodos incompatíveis com o Estado de Direito, incluindo a obtenção de provas sob pressão. O Ministério Público Federal argentino, liderado por Fabiana León, enfrenta um dilema: manter a legalidade do processo ou se tornar 'garante silencioso' de práticas questionáveis, como apontou o advogado Gregorio Dalbón em rede social.