The Lancet retrata artigo de 1977 usado por décadas para defender segurança do talco após conflito de interesses ser revelado
A revista médica The Lancet anunciou a retratação de um artigo de opinião publicado em 1977, que foi amplamente citado para defender a segurança de produtos à base de talco. O texto, de autoria anônima, foi posteriormente atribuído ao patologista Francis John Caldwell Roe, que atuava como consultor remunerado da Johnson & Johnson enquanto ocupava cargos em comitês de saúde pública no Reino Unido e na OMS. Documentos revelaram que Roe submeteu o artigo à empresa antes da publicação, levantando questões sobre conflito de interesses.
Contexto e retratação
O artigo de opinião, composto por apenas cinco parágrafos, foi publicado na seção de comentários da The Lancet em 1977 e, por décadas, serviu como referência científica para a segurança de produtos à base de talco. No entanto, a revista anunciou sua retratação em 2026, quase 50 anos após sua publicação, devido à descoberta de que o autor era Francis John Caldwell Roe, um patologista que atuava simultaneamente como consultor da Johnson & Johnson e em comitês de saúde pública no Reino Unido e na Organização Mundial da Saúde (OMS). A matéria-prima do talco, um mineral argiloso, poderia ser contaminada por amianto durante a extração, um conhecido agente cancerígeno. Atualmente, os talcos comercializados são produzidos à base de amido de milho.
Conflito de interesses e investigação
Em 1979, Roe publicou uma carta na The Lancet referindo-se ao artigo anônimo como 'equilibrado' e revelou ser consultor da Associação de Cosméticos, Artigos de Higiene Pessoal e Perfumaria. Historiadores da saúde pública, David Rosner e Gerald Markowitz, investigaram a relação de Roe com a Johnson & Johnson e descobriram documentos que comprovam que ele submeteu uma cópia do texto à empresa antes da publicação, pedindo comentários. Em uma carta ao diretor de assuntos médicos da Johnson & Johnson, Gavin Hildick-Smith, Roe afirmou ter ajustado o artigo conforme sugestões da empresa. Roe faleceu em 2007, aos 82 anos, mas seu legado foi manchado pela revelação de que seu trabalho foi influenciado por interesses corporativos.