Ira Aldridge: Primeiro ator negro a interpretar Otelo em Londres completa 201 anos do marco histórico
Em maio de 1825, o ator norte-americano Ira Aldridge estreou como Otelo no Royalty Theatre, em Londres, tornando-se um dos primeiros atores negros a interpretar um personagem de Shakespeare em um palco profissional na capital inglesa. Aos 17 anos, Aldridge enfrentou racismo e resistência, mas consolidou sua carreira na Europa, adotando o título de 'O Trágico Africano' e desafiando estereótipos raciais da época.
Início da carreira e desafios nos EUA
Nascido em Manhattan, em 1807, Ira Aldridge iniciou sua trajetória no teatro como parte da African Grove Theatre, a primeira companhia teatral composta exclusivamente por atores negros nos Estados Unidos. As produções do grupo eram frequentemente alvo de ataques e zombarias por parte de detratores brancos, levando Aldridge a se envolver em confrontos físicos nas ruas. Diante das limitações impostas pelo racismo estrutural, ele decidiu migrar para a Inglaterra em busca de oportunidades.
Estreia em Londres e ascensão profissional
Em 10 de maio de 1825, Aldridge estreou como Otelo no Royalty Theatre, um estabelecimento de menor prestígio no East End londrino. As críticas à sua performance foram divididas: enquanto um crítico repreendeu o 'Gentleman of Colour recém-chegado da América' por sua dicção instável, elogiou sua representação física da angústia durante a cena da morte, descrevendo-a como 'uma das mais finas representações de sofrimento corporal que já testemunhamos'. No mesmo ano, ele atuou no Royal Coburg Theatre como Oroonoko, em uma adaptação do romance de Aphra Behn, consolidando sua presença nos palcos britânicos.
Estratégias de carreira e legado
Aldridge adotou o nome artístico 'O Trágico Africano' e alegava descendência da realeza senegalesa, uma estratégia que, embora reforçasse estereótipos exóticos, também lhe conferiu notoriedade. Sua atuação frequentemente subvertia as expectativas racistas do público, que, segundo o estudioso Bernth Lindfors, saía dos espetáculos com 'uma apreciação contida da virtuosidade negra'. Em 1833, após a morte do renomado ator britânico Edmund Kean, que interpretava Otelo no Covent Garden, Aldridge foi convidado a assumir o papel. No entanto, a imprensa lançou uma campanha difamatória racista contra ele, com o jornal *The Figaro in London* prometendo infligir 'um castigo que o expulsaria dos palcos'. Apesar das adversidades, Aldridge continuou sua carreira na Europa, tornando-se um símbolo de resistência e pioneirismo.