Burocracia e corpos simbólicos: Como documentos moldam a relação entre cidadãos e Estado em 2026
Documentos, formulários e processos burocráticos continuam a ser elementos centrais na interação entre cidadãos e instituições públicas em 2026. Segundo o filósofo Boris Groys, esses 'corpos simbólicos' não apenas representam indivíduos perante o Estado, mas também determinam o acesso a serviços essenciais. A complexidade dos trâmites, porém, impõe desafios logísticos e psicológicos, exigindo atenção e paciência dos cidadãos para garantir direitos básicos.
A função dos 'corpos simbólicos' na sociedade contemporânea
Em seu livro *Filosofia da Cura* (2023), Boris Groys define documentos, formulários e registros oficiais como 'corpos simbólicos' — objetos que atuam como extensões da identidade individual perante instituições. Esses elementos não são meramente administrativos: eles viabilizam o acesso a serviços públicos, desde saúde até educação, e asseguram a 'usabilidade' do corpo real dentro do que Groys chama de 'sistema de cura'. O termo não se restringe à saúde física, mas abrange todas as estruturas que garantem a reprodução da vida biológica e psíquica, incluindo órgãos governamentais, empresas privadas e entidades reguladoras. A eficiência desse sistema depende da precisão e validade dos documentos, que funcionam como uma ponte entre o indivíduo e o Estado.
Desafios e paradoxos da burocracia em 2026
Apesar de sua importância, a burocracia estatal impõe uma 'via crucis' aos cidadãos, nas palavras do texto. A necessidade de apresentar documentos atualizados, preencher formulários complexos e lidar com prazos rígidos transforma demandas simples — como solicitar um benefício social ou renovar uma licença — em processos extenuantes. Groys destaca que essa dinâmica exige não apenas resistência física, mas também uma 'elevada capacidade de atenção', muitas vezes incompatível com a urgência dos problemas enfrentados. O paradoxo reside no fato de que, embora os documentos sejam essenciais para acessar direitos, sua gestão pode se tornar um obstáculo, especialmente para populações vulneráveis ou com baixa alfabetização funcional.
O sistema de cura como dispositivo social
Para Groys, o 'sistema de cura' é um mecanismo de perpetuação da ordem social. Sua lógica pressupõe que apenas corpos 'saudáveis' — entendidos aqui como aqueles devidamente documentados e regulados — podem participar plenamente da vida coletiva. Essa perspectiva explica por que a burocracia é tão rigorosa: ela não apenas organiza, mas também disciplina, garantindo que os indivíduos estejam em condições ideais para contribuir com a sociedade. No entanto, o texto alerta para os riscos dessa abordagem, que pode marginalizar quem não consegue atender às exigências documentais, reforçando desigualdades estruturais. Em 2026, a tensão entre eficiência burocrática e inclusão social permanece um tema central nos debates sobre governança.