Médicos medievais e a ineficácia no combate à Peste Negra: lições históricas sobre pandemias
Durante a Peste Negra, médicos medievais, tanto cristãos quanto muçulmanos, basearam-se em teorias antigas e terapias tradicionais, como sangrias e cauterizações, para tratar a doença. No entanto, suas abordagens se mostraram completamente ineficazes, gerando descrédito e críticas severas à profissão médica. Crônicas da época destacam a fuga de médicos, a falta de compaixão e a cobrança de honorários abusivos, revelando a incapacidade de lidar com uma pandemia sem precedentes.
Teorias e práticas médicas medievais
Os médicos da Idade Média recorreram ao conhecimento médico existente, derivado de textos antigos e obras árabes escritas entre os séculos IX e XII, para tentar compreender a Peste Negra. Eles buscaram enquadrar a nova doença no arcabouço da Teoria dos Humores de Galeno, que dominava a medicina da época. Entre as terapias tradicionais aplicadas estavam a sangria e a cauterização, métodos amplamente utilizados para equilibrar os humores corporais. Contudo, essas práticas não apenas falharam em curar os pacientes, como muitas vezes aceleraram suas mortes.
Críticas e descrédito da profissão médica
A ineficácia dos tratamentos gerou um profundo descrédito na classe médica. O poeta italiano Petrarca, na década de 1350, classificou os médicos como 'a escória da sociedade', acusando-os de enganar os pacientes e roubar-lhes dinheiro e saúde. Demetrios Kydones, oficial bizantino, relatou em carta o choque com a fuga de seu amigo médico, Georgios, que abandonou Constantinopla sem aviso ao início da pandemia. Kydones afirmou que os médicos restantes 'não tinham nada útil a dizer' e se escondiam para escrever seus testamentos. Em Siena, o sapateiro Agnolo di Tura declarou que 'nenhum remédio ou defesa ajudou', e que qualquer tentativa de tratamento apenas apressava a morte.
Explicações para o fracasso médico
O cronista florentino Marchionne di Coppo Stefani ofereceu uma explicação para o fracasso sistemático dos médicos, sugerindo que as doenças causadoras da pandemia não eram reconhecidas ou nunca haviam sido estudadas adequadamente. Stefani também criticou a ganância dos profissionais, que exigiam pagamentos exorbitantes adiantados antes de entrar nas casas dos doentes. Essa combinação de desconhecimento científico, falta de compaixão e interesses financeiros contribuiu para a percepção pública de que a medicina da época era incapaz de enfrentar a crise.