Pesquisa da USP revela machos de jiboia arco-íris com estruturas semelhantes a útero
Estudo realizado no Instituto de Biociências da USP identificou machos da jiboia arco-íris do Cerrado (Epicrates crassus) com vestígios de ovidutos, estruturas similares ao útero feminino. A descoberta, inédita para o grupo de serpentes, sugere casos de intersexualidade e abre novas discussões sobre a flexibilidade do sexo biológico em animais.
Descoberta científica e contexto
Uma pesquisa conduzida pelo pesquisador Rafael Anzai no Instituto de Biociências (IB) da USP revelou um fenômeno biológico surpreendente na jiboia arco-íris do Cerrado (Epicrates crassus). O estudo, classificado como 'ciência básica', teve como objetivo expandir o conhecimento sobre a família das jiboias e sucuris, focando em aspectos como ciclo biológico, comportamento e hormônios. A descoberta mais impactante foi a presença de estruturas semelhantes a ovidutos — órgãos femininos que funcionam de forma análoga ao útero humano — em machos da espécie. Esses animais, geneticamente machos e capazes de produzir espermatozoides, apresentam vestígios de um sistema reprodutor feminino, um caso raro de intersexualidade nunca antes descrito com tantos detalhes para esse grupo de serpentes.
Intersexualidade e implicações biológicas
A presença de ovidutos em machos de jiboia arco-íris foi comparada à Síndrome da Persistência dos Ductos de Müller, uma condição rara em que o corpo não reabsorve completamente as estruturas femininas durante o desenvolvimento embrionário. Embora essas estruturas não sejam funcionais para a reprodução, sua existência desafia conceitos tradicionais sobre a determinação do sexo em animais. Os pesquisadores ainda não determinaram se o fenômeno é influenciado por fatores genéticos ou ambientais, mas a descoberta destaca a complexidade e a flexibilidade dos sistemas biológicos. O achado também reforça a importância da educação científica para valorizar a biodiversidade brasileira e questionar paradigmas estabelecidos nos livros didáticos.