Especialistas alertam: avanço da IA pode degradar condições de trabalho em vez de eliminá-lo
Análise publicada pelo The Intercept Brasil desmistifica a ideia de que a inteligência artificial substituirá o trabalho humano. Em vez disso, pesquisadores apontam que a tecnologia pode intensificar a precarização e estender jornadas, contrariando previsões históricas de redução do tempo laboral.
Tese do 'fim do trabalho' é contestada por dados históricos
A discussão sobre o impacto da inteligência artificial no mercado de trabalho não é nova, mas ganha novos contornos em 2026. Segundo análise do The Intercept Brasil, a ideia de que a automação levaria ao desaparecimento de empregos ou à libertação do trabalho humano carece de respaldo na realidade. Autores como Hannah Arendt e Martin Ford já haviam explorado o tema, com visões otimistas e pessimistas, respectivamente. Arendt via na automação uma possibilidade de emancipação do labor, enquanto Ford alertava para o desemprego tecnológico e a ameaça aos empregos industriais e de classe média. O filósofo André Gorz, em seu livro 'Adeus ao proletariado' (anos 1980), defendia a redução do trabalho heterônomo — aquele subordinado a regras definidas por terceiros — e a reorganização social em torno de outros sentidos além do trabalho. No entanto, a realidade mostra que, apesar do avanço das forças produtivas, a jornada de trabalho não foi reduzida. Pelo contrário, tecnologias como smartphones e home office tornaram a fronteira entre tempo de trabalho e não trabalho cada vez mais difusa. Recentemente, a Argentina aprovou uma reforma trabalhista que amplia a jornada de trabalho, reforçando essa tendência.
Precarização e extensão da jornada: os riscos da IA no mercado de trabalho
A análise destaca que, ao invés de eliminar empregos, a inteligência artificial pode agravar a precarização do trabalho. A sensação coletiva de que se trabalha mais, e não menos, é reforçada pela integração de tecnologias que permitem a conexão constante, como dispositivos móveis e modelos de trabalho remoto. A promessa de uma sociedade com mais tempo livre, baseada no aumento da produtividade, não se concretizou. Em vez disso, observa-se uma intensificação do trabalho, com jornadas mais longas e maior pressão por resultados. O texto ressalta que, historicamente, as previsões sobre o fim do trabalho não se confirmaram. Mesmo com o avanço técnico, a centralidade do trabalho como categoria organizadora da sociedade capitalista persiste, e as condições laborais tendem a se deteriorar em vez de melhorar. A discussão ganha relevância em um contexto global onde empresas e governos buscam integrar IA em diversos setores, muitas vezes sem regulamentação clara sobre seus impactos sociais.