Mulheres Nordestinas e Aviador Militar: Atuação na Resistência e Primeira Vítima da Ditadura Militar Brasileira
O 62º aniversário do Golpe Militar de 1964 ressalta a atuação de mulheres em Pernambuco na resistência ao regime ditatorial e a vida de Alfeu de Alcântara Monteiro, aviador que se tornou a primeira vítima executada pela ditadura em 1964.
Mulheres na Resistência à Ditadura Militar
Pernambuco, um estado marcado pela violência da repressão durante a Ditadura Militar, foi palco da atuação de mulheres que lutaram pela defesa dos Direitos Humanos. Mércia Albuquerque, conhecida como "a advogada dos mil casos", defendeu presos políticos no Nordeste e chegou a invadir um hospital para exercer sua função. Alexina Crespo intermediou o apoio de Cuba às Ligas Camponesas para reforma agrária, tendo convivido com Che Guevara e Mao Tse Tung. Amparo Araújo atuou na Aliança Libertadora Nacional (ALN), grupo de resistência liderado por Carlos Marighella, e atravessou os anos de chumbo sem ser presa. A dificuldade de acesso a direitos e autonomia para as mulheres em 1964 intensificou suas lutas. Mércia Albuquerque, como estagiária, presenciou a prisão e tortura de Gregório Bezerra e dedicou-se à causa dos presos políticos.
Alfeu de Alcântara Monteiro: Trajetória e Execução
Alfeu de Alcântara Monteiro, aviador e tenente-coronel da Força Aérea Brasileira (FAB), nascido em 31 de março de 1922, destacou-se por seu papel na Campanha da Legalidade, garantindo a posse de João Goulart ao comandar a insurreição dos oficiais legalistas na Base Aérea de Canoas, impedindo o bombardeio de Porto Alegre. Alinhado aos setores nacionalistas e progressistas das Forças Armadas, liderou a criação de uma patrulha armada para a segurança de Goulart após o golpe de 1964. Alfeu foi executado a tiros três dias após a quartelada, tornando-se a primeira pessoa assassinada pela ditadura militar brasileira. Sua carreira militar iniciou-se aos 19 anos na Escola Militar do Realengo, transferindo-se para a Escola da Aeronáutica, onde se formou aspirante em 1942. Foi promovido a primeiro-tenente aviador em 1946 e foi um dos primeiros instrutores dos bombardeiros B-25 e caças Gloster Meteor. Serviu em diversas bases e ingressou no curso do Estado-Maior da Aeronáutica em 1958.
A Mentira da Violência Restrita da Ditadura
A ideia de que a Ditadura Militar brasileira atingiu apenas a classe média, sendo um "marcador de classe" para narrativas de repressão, é desinformadora e perigosa. Essa perspectiva, popularizada em redes sociais, sugere que pessoas de classes mais baixas, camponeses ou do interior "dificilmente tiveram qualquer coisa a ver" com o regime. Essa noção, porém, aceita a "mentira central da Ditadura Militar", a de que a violência praticada pelos militares foi restrita e dirigida apenas a um grupo específico, desconsiderando o alcance amplo e sistemático da repressão.
Identificação do Local do Falso Suicídio de Vladimir Herzog
Pesquisadores identificaram o local exato onde a ditadura militar encenou o falso suicídio do jornalista Vladimir Herzog, um episódio emblemático do período. A descoberta, fruto de um trabalho minucioso de historiadores, arqueólogos e arquitetos, envolveu a escavação de pisos, paredes e tetos, encontrando vestígios materiais que coincidem com registros fotográficos e documentos da época. O local, que abrigou o DOI-Codi, foi reformado na década de 1980. Entre os elementos encontrados estão remendos na parede correspondentes a pontos de fixação de grade de janela, vestígios de piso de tacos e um buraco na parede onde ficava o ferrolho da porta. A comparação com o laudo da morte de outro preso político, José Ferreira de Almeida, reforçou a conclusão de que a farsa foi encenada naquela sala.