Violência histórica contra mulheres indígenas no Brasil: o mito da 'pega no laço' e suas raízes coloniais
O mito da 'pega no laço' revela uma história de violência sistemática contra mulheres indígenas no Brasil, perpetuada desde a colonização. Especialistas destacam que narrativas como essa, embora frequentemente romantizadas, refletem práticas de captura e submissão forçada de mulheres indígenas por homens brancos. A expressão, comum em regiões como Sul, Sudeste, Norte e Nordeste, simboliza a brutalidade da colonização e a resistência dos povos originários.
Origem e significado do mito
A expressão 'pega no laço' é um mito que se popularizou no Brasil para descrever a captura forçada de mulheres indígenas por homens brancos durante o período colonial. Segundo Mirna Kambeba Omágua Yetê Anaquiri, doutora em arte e cultura visual pela Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB) e pertencente ao povo Kambeba Omágua do Amazonas, a narrativa faz parte da história de colonização do território que os povos indígenas chamam de Abya Yala ou Pindorama. Suelen Siqueira Julio, especialista em história do Brasil Colonial e relações de gênero, explica que o termo 'mito' foi ressignificado no imaginário popular como sinônimo de mentira, mas originalmente refere-se a uma narrativa para explicar a origem de algo. A expressão se propagou principalmente nas regiões Sul e Sudeste, associada ao imaginário do gaúcho que usava laços para capturar animais e, metaforicamente, mulheres indígenas.
Variações regionais e crítica à romantização
Embora a versão mais conhecida do mito seja a da 'pega no laço', outras variantes regionais incluem 'pega a dente de cachorro' ou 'pega a casco de cavalo', especialmente no Norte e Nordeste do Brasil. Todas essas narrativas compartilham a mesma ideia de captura violenta e forçada de mulheres indígenas. Suelen Siqueira Julio critica a forma como o mito é frequentemente compartilhado de maneira trivial, sem o devido contexto histórico e crítico. 'É uma história que precisa ser contada com multiplicidade, precisa ser contada com crítica. Isso não é uma história da Disney, muitas mulheres foram, sim, pegas à força', afirma. Mirna Anaquiri reforça que relatos desse tipo, quando usados para estabelecer conexões superficiais com a ascendência indígena, demonstram como a sociedade ainda minimiza a violência sofrida pelos povos originários.